Pra que? Pra nada.

Um dia desses estava indo pra qualquer um dos lugares que sempre vou. Coloquei os fones de ouvido, comecei a procurar alguma música que “casasse” com a sensação que percorria meu corpo desde a hora que acordei. Passei todas as músicas do celular. 364. Não ouvi nenhuma. A cada faixa que eu pulava, um nó na garganta. E aquela vontade de poder pular, assim como uma música, essas angústias que atormentam “sem querer”. O metro lotado e, mesmo assim, solidão. Como é estar sozinho ao lado de várias pessoas? Músicas que remetiam a milhares de histórias, momentos e sorrisos, silenciaram naquele dia e nada me era o suficiente. Acho que algumas vezes nada parece suficiente. E não só pra mim. Pra todo mundo. “Por Deus, olha o tanto de coisa boa aí, menino” diziam as pessoas. E nada, nada, nada. Percebi quando sai do túnel que a janela estava molhada. Uma chuva seca que escorria lenta enquanto eu continuava tentando escutar qualquer coisa que não fosse esse grito daqui de dentro. Um mergulho em mim mesmo. Pra que? Me passa na cabeça um filme de quantas vezes essa mesma cena se repetiu. De ter tudo e não ter nada. De ser completo e transbordar vazio. Vazio.

Pra que? Pra nada.

como gente grande.

O silêncio, mais uma vez, faz questão de atormentar minha cabeça. Como é possível o silêncio perturbar alguém? Ele perturba. Ele faz um estardalhaço e se você não sabe contê-lo, olha, já organiza tuas malas a caminho desse buraco que da no peito. E o mais engraçado é o quanto essa sensação me faz bem. Uma mescla de tudo e nada e não ter tudo e ser somente nada. Hoje, como todos os dias, voltei pra casa com dúvidas. Em meu trabalho. Amigos. Família. Sonhos. Dúvidas. Acho que existe um momento da nossa vida em que a gente resolve questionar tudo. E sinceramente eu acho do caralho, porque todas as vezes que me questiono, levanto uma porrada de novas possibilidades e novos caminhos que eu nem fazia ideia que existiam. Ou… Não. Hoje, por exemplo, não. Me pego, de novo, questionando absolutamente tudo aquilo o que eu me vejo envolvido. A droga é que quando isso acontece, do nada, e você não sabe lidar, o buraco acaba sendo muito mais embaixo do que dizem ser. Tem dia que tem cara de nada a ver. Sabe? Um dia nada a ver é estranho, frio. E, sei lá porque, hoje foi um dia nada a ver mesmo não tendo motivo nenhum pra isso. O ser humano é um saco! Ando de metrô todos os dias e o metrô é um prato cheio pra conhecer/observar/analisar todos os tipos possíveis de pessoas. Vejo gente jovem velha e velho de espírito menino. Vejo gente “de idade” sorrindo sem motivo. Vejo gente com a testa encostada na janela pensando sabe-se Deus o que. Vejo homens, mulheres, crianças… E eu. É nessa ausência de algo que eu não sei o que é que consigo me perceber. E se perceber, nessa altura do campeonato, pode ser um pé no saco. A verdade é que o fim do ano ta aí e já está todo mundo com quarenta mil planos para o próximo ano, comemorando as conquistas no trabalho ou, então, por terem concluído o tal do 100 #HappyDay que virou a maior sensação no meio daqueles que tem a necessidade da auto afirmação. Não faz sentido, sério. Não sei nem onde comecei a escrever isso e não sei mais onde eu estou. Merda. Sentido errado do metrô. Preciso voltar. Voltar? Não. Se olhar pra frente me assusta, que dirá olhar pra trás. Preciso é virar a página. Olhar sem medo para aquilo que você realmente é, sabe? Que difícil esse negócio de ser gente grande e viver comogentegrande e agir comogentegrande e ser babaca comogentegrande.

como gente grande.

Ser legal e suas chatices

Li um artigo faz mais de um ano e lembro dele praticamente todos os dias. Não exatamente o que estava escrito, mas o contexto todo da coisa. Era meio que um conto sobre a vida extremamente chata de um cara que era legal com todo mundo. O ponto era esse. Ser legal. Desde quando li esse artigo penso sobre a chatice que é isso. Não a parte de ser legal, mas sim a parte de “manter-se” legal. É bizarro. São algumas muitas coisas que acontecem que te levam a explodir. Porque você, de fato, é alguém legal. Mas isso começa a te encher o saco quando você percebe uns detalhes idiotas mas que na somatória total fazem total diferença. Você é a primeira pessoa a ser citada quando o assunto é organizar uma festa ou sair para beber com os amigos. Em compensação, é o último a ser notado quando precisam de alguma opinião ou, sei lá, quando é preciso ser tomada alguma decisão de grande importância. Ok, beleza, pode parecer muito radical pensar sobre isso e muitas vezes soar como um drama mal feito de um deprimido qualquer. Mas parar pra analisar os fatos, com certeza, vai te encher o saco. Isso sem contar o quanto você é legal ATÉ QUE cometa qualquer erro completamente estúpido, sem querer e bem pequeno perto do tanto de coisa realmente chata que você já engoliu de Deus e do mundo. É engraçado pensar isso mas as pessoas que parecem ser as mais legais são as que mais penam com essa parada. E fora isso, ficam nesse sofrimento em silêncio sem contar pra ninguém. Parei pra observar as pessoas que convivem comigo todos os dias antes de escrever sobre isso. São pessoas absurdamente legais. E ridiculamente dependentes umas das outras. Isso é bom pensando em uma equipe ou algo do tipo. Mas ao mesmo tempo chega uma hora que você cansa desse negócio de “deixa pra lá”. Deixar para lá? Até quando? Percebo cada vez mais pessoas sorrindo porque simplesmente TEM QUE sorrir e não porque QUEREM sorrir e, porra, isso é desesperador. Vivemos hoje em um mundo na qual a relação humana é uma das últimas – se não a última – coisa que tem importáncia, visto que vale mais uma mensagem respondida na droga do celular do que um “como você ta?” dito cara a cara. Isso sem contar no quanto você, aderindo as medidas desse padrão chato de hoje em dia, responde mensagem sem querer responder, faz média com aquele cara que você mais acha idiota e finge em quarenta mil grupos de conversa o quanto você está feliz e satisfeito com você mesmo, quando na verdade a única coisa que você quer fazer é fugir para uma praia deserta e passar uns bons tempos podendo ser ninguém além de você mesmo. Você. Esse é o ponto. Reparo cada vez mais o quanto as coisas tem acontecido “fora” ao invés de “dentro” e isso é bem esquisito. Tanto é que, por fora, você é o cara mais legal do mundo quando por dentro se sente um mané qualquer. Até ai, tudo bem. Você sabe relevar as coisas e não se importa muito em “não dar sua opinião em algo importante” ou então de não ser convidado para uma reunião onde todos – todos mesmo – os seus amigos estavam organizando algo. Cansa. As pessoas legais também cansam. As pessoas legais também sentem vontade de sumir do mundo. As pessoas legais também ficam exaustas e, sobretudo, elas também cansam de somente ouvir o “lenga lenga” da sua vida chata e estagnada quando na dela acontecem milhares de coisas incríveis e ninguém nem sonha que isso aconteça. Sinceramente? Parei para reparar no quanto isso acontece em mim e no quanto eu também faço isso com alguém ou sei lá. E percebi que todo mundo pode ser ouvido e todo mundo pode falar também. Nessas horas “chatas”, pessoas “legais” realmente fazem a diferença. Senso. Sabe aquele negócio de “ter noção” das coisas? Pois é. Além de estar de saco cheio de ser legal e de ter noção em dobro de absolutamente tudo o que acontece no dia a dia, perceba o outro. Juro, é besta mas faz total diferença. E outra que ninguém merece uma vida inteira sendo SÓ legal. É preciso de um devaneio ou outro pra dar graça. Um desabafo, umas boas merdas ditas ou, como no meu caso, um blog pra colocar pra fora esse turbilhão que acontece aqui dentro. Dentro. Sempre dentro.

Ser legal e suas chatices

Noite. Música. Vazio. (?)

Meu quarto estava escuro. Lembro do silêncio daquela noite. Havia uma festa na casa ao lado e eu, tomado por uma ira jamais sentida, me percebi observando as pequenas frestas de luz que invadiam o carpete pela janela. Curiosas frestas. Custava me deixar quieto uma única noite? Lembro. Lento. Lendo. Desenhava-se um poema com tantos traços cruzados amarelados no chão de meu quarto. Quis fazer poesia. Eu quis. Há tempos não me via sequer segurando meus tantos lápis que agora ficavam apenas espalhados pelo chão do quarto. Hoje, especificamente, hoje, peguei um no chão. Quis senti-lo. Talvez despertar a mesma ira, mas numa pintura ou qualquer coisa do tipo. Hoje, especificamente, hoje. São 364 dias. Trezentos e sessenta e quatro. Maldita luz aquela que invadia a minha timidez. O que poderia querer? Me fazer olhar para o espelho? Talvez. Risadas na festa ao lado. Eram zumbido na minha cabeça. Trezentos e sessenta e quatro dias. Escuro. Escuto. Um Escudo. Protegendo o meu canto dos foliões que insistiam em transbordar suas alegrias. Resolvi levantar. Não era possível eu, que bastava um bom vinho e alguns velhos amigos para querer comemorar, poderia achar de mal gosto qualquer festa que fosse. Um som baixo vinha dos fundos da casa. Era mais que um encontro. Quis mais uma vez. Eu quis. Folhas coladas na parede e o vazio desenhado em todas elas. Consigo te descrever a forma do vazio. São inúmeras, sei disso. 364 talvez. Posso descrever cada uma delas. Até com cores, se quiseres. Percebi o lápis na mão. Verde. Não. Preto. Traços de escuridão por todo o quarto. Resolvi começar de novo. Era bom. Fiz das frestas de luz espelho refletido nas paredes do quarto. Me vi artista. Mais uma vez. Por minutos. Instantes, eu diria. Passou, claro. Vi infinitos riscos e rabiscos e… Escuro. Em um escudo meu de mim mesmo. Eu que fiz. E o que importa? Nada! “Boa festa, companheiros”, gritei pela janela. Fechada. Pra que ninguém me ouvisse.

Noite. Música. Vazio. (?)

Uma manhã como qualquer outra. Ou não.

Os primeiros segundos de qualquer manhã são iguais, independente do dia que seja. Você vira para o lado umas duas ou três vezes até criar coragem de levantar e então seu dia de fato começa. Geralmente uma das primeiras – isso se não for a primeira – coisa que faço é abrir meu celular e ver o que já está acontecendo nas manhãs dos que acordaram antes que eu. Chega a ser bizarra a contradição que acontece entre os posts das pessoas. Gente que reclama pelo dia ter começado e gente que agradece por simplesmente ter levantado bem. As duas situações me remetem a uma única coisa: beleza. É impossível reclamar de algo quando se nota a beleza que há por baixo daquilo. Claro que é muito mais fácil reclamar da “droga do sol que te acordou porque entrou pela janela” do que reparar no quão bonito o céu fica quando nosso amigo de fogo resolve aparecer. São os detalhes. Os mínimos. Os mais discretos e despretensiosos. A beleza fica ali, no intervalo entre a preguiça de ficar deitado na cama até o banho demorado que te faz acordar. Olha, nossa cidade é bonita pra caramba e ninguém sequer repara nisso. Porque, mais uma vez, é um hábito comum encher a boca pra falar um monte dessa “cidade cheia de prédio e gente mal humorada” do que olhar pra cima e ver o quanto a beleza do prédio difundida nas nuvens faz teu dia ser um pouquinho melhor. Faz uns dois meses que prometi pra mim mesmo olhar para o céu, por dois segundos que seja, todos os dias. Mania besta que temos de ficar enfurnado nessa loucura da vida e não reparar naquilo que está bem debaixo do nosso nariz. Tenho olhado. Somente isso. E, olha, posso dizer que, mesmo sem querer, me arranca um sorriso de canto de boca conseguir reparar nesses detalhes do dia a dia. Olhe para o céu. Não custa tentar. É ridículo de fácil e o poder de transformar seu dia chega a ser palpável de tão próximo que fica. Bom dia? Excelente dia!

Uma manhã como qualquer outra. Ou não.

enfim, feito.

Há mais ou menos uns dois ou três anos escrevo uma porrada de coisas. No celular. Em pedaços de papel. No caderno dos outros. Em folheto de pizzaria. Tanto faz. Não importa muito o lugar, eu escrevo. Coisas que não são necessariamente sobre mim ou sobre alguém ou algo assim. Escrevo sobre coisas, diversas. Sobre aquilo que, por um instante, me desperta a necessidade de escrever. Vejo posts, frases jogadas, textos muito bem escritos por ai e sempre fico “filosofando” sobre aquilo que leio. E percebi que quanto mais leio, mais conteúdo guardo em mim. Mas isso tudo… vale o que? De que vale uma cabeça recheada de conhecimento e boas intenções se ficam guardadas, escondidas? Como dizem “de boa intenção, o inferno tá cheio”. E exatamente por isso, por esse basta de guardar o que borbulha aqui, resolvi escrever. Botar pra fora e, sei lá, só pra ter onde deixar um pouquinho de mim. Não espero ser seguido, não quero ser odiado, não quero ser referência de texto ou qualquer coisa assim. Quem sabe um dia até chegue lá mas, hoje, essa não é minha vontade. A única coisa que quero é escrever. Para além do celular, pedaços de papel, caderno dos outros… Escrever aqui e mandar um pouquinho mais pra longe. É isso. Fim.

enfim, feito.